O livro que me despertou para a leitura

Capa de edição antiga do livro "Por uma semente de paz", Ganymédes José
Editora do Brasil


Eu tinha doze anos quando comecei a ter aulas de leitura na escola. Da minha infância até aquele momento todo o meu interesse na leitura se concentrava em poder me divertir com os gibis da Turma da Mônica; fora isso, eu considerava ler uma atividade enfadonha, desinteressante e que eu realizava puramente por obrigação e boas notas. Nunca poderia imaginar que eu estava prestes a me tornar uma leitora.

Agora era rotineiro eu precisar fazer relatórios de livros que a professora dispunha apoiados na lousa durante a aula de leitura para que os alunos escolhessem um título de seu interesse. E todas as vezes eu sentia aquela sensação ruim já conhecida, de total desconexão com aquela atividade, com o livro que eu havia selecionado, com a história contada naquele livro.

Mas naquele dia foi diferente. Naquele dia eu avistei apoiado na lousa um livro que tinha uma capa com uma borda amarela e o centro lembrava um papel de jornal. Havia a ilustração de uma moça em pé, de frente, segurando alguns livros em um abraço junto ao peito. O título era: “Por uma semente de paz”, e a sinopse contava se tratar da jornada de uma jovem professora para ensinar os alunos adolescentes de uma escola pública na periferia. Eu era uma estudante adolescente estudando em uma escola pública em área de periferia, portanto, a história comunicava diretamente à minha realidade e isso fez o meu interesse naquele livro se tornar completo.

O nome do autor me soou muito curioso, num misto de exótico e engraçado. Era Ganymédes José. Deixei para saber mais sobre o autor num segundo momento, e iniciei minha jornada de leitura.

Aquela experiência de leitura foi algo que eu nunca antes havia vivido. Eu podia me ver sentada no banco da escola ao lado dos personagens presenciando a todos os acontecimentos que eram narrados. Podia ouvir seus diálogos, suas risadas, sentir os cheiros do ambiente e a completa atmosfera em minha pele; era como se o ato de abrir o livro em minhas mãos tivesse me dado o poder de me tornar uma personagem da história. Eu senti as tensões, os medos, a dor das lágrimas e das derrotas, a indignação pelos revezes das situações narradas como se estivessem acontecendo comigo, como se cada estrofe estivesse sendo contada para mim diretamente pelos personagens centrais em um diálogo onde o meu apoio e acolhimento eram solicitados. Eu morei naquelas páginas pelas horas que a leitura durou como a experiência mais vívida que eu havia tido na vida como uma pré-adolescente com uma rotina comum e sem nenhuma novidade.


Minha ficha da biblioteca municipal da minha cidade natal, Campinas/SP. Datada de 28/06/2002. Na foto eu tinha 13 anos de idade.


Imediatamente, fui instigada a ler todos os livros deste autor de que a escola dispunha. Infelizmente, não eram muitos títulos; os que estavam disponíveis eram de edições bem antigas e com um estado de conservação que deixava a desejar. O que me levou a buscar por seus livros na biblioteca pública da minha cidade, onde encontrei uma variedade maior de títulos e também em melhor conservação.

Tenho nítida a memória da tarde que passei na companhia da leitura do livro “Brim Azul - a história de uma calça”, da excitação com os acontecimentos cômicos e absurdos que transcorriam na história, o som alto das minhas gargalhadas ecoando pelo quarto e como ao terminar a leitura eu senti uma necessidade inquietante de dividir com alguém aquelas passagens hilariantes que eu tinha acabado de degustar!



O primeiro livro que comprei do autor na adolescência juntando meu próprio dinheirinho: Um girassol na janela, na sua 53ª impressão, um grande sucesso de público desde sua tiragem de estreia.


Quando algum livro dele estava em falta na biblioteca, eu anotava em um papel, fazendo nascer uma listinha de títulos desejados. E juntado alguns trocados que ocasionalmente eu recebia dos meus pais, comprei o meu primeiro livro do autor, o meu próprio livro do Ganymédes José, que não era mais um livro emprestado da biblioteca da escola, ou da biblioteca da cidade, que eu não precisaria mais devolver, mas era meu, todo meu e bem novinho, com capa atualizada de tiragem recente e que ganharia uma dona pela primeira vez: “Um girassol na janela”; e direto das fantasias da protagonista Vivinha, os superheróis Helianto e Santarena vieram morar para sempre no meu coração!

Descobrir os livros do Ganymédes José foi algo que marcou a minha passagem da pré-adolescência para a adolescência. Suas histórias, que falam sobre a vida comum, expõem o peso do desnivelamento da justiça, desnudam sentimentos, cultivam a compaixão no coração do leitor e guiam seus olhos para o que verdadeiramente vale ser notado. Mostram a tristeza na linha da vida que deve ser acudida e transformada. Sua obra tocante o colocou no pódio de autores brasileiros mais lidos nas décadas de 70 e 80 no Brasil e também lhe concedeu premiações importantes.



Alguns livros da minha coleção particular, adquiridos em livrarias e sebos ao longo dos anos.


Segui fazendo minha coleção, comprando seus livros sempre que conseguia juntar um dinheiro ou pedindo como presente de aniversário e de Natal. Depois de algum tempo, comecei a ter dificuldades de encontrar os títulos à venda nas livrarias; a informação que recebi a respeito foi de que eles haviam se tornado exclusivamente paradidáticos, e já não seriam mais impressos com frequência para a comercialização. Isso fez interromper a minha aquisição por um longo período, até que no ano passado, ganhei de presente surpresa mais alguns títulos adquiridos pela internet em um sebo.

Ainda não tive a sorte de encontrar a edição e a capa clássica da querida professora Liene, com seus livros num abraço junto ao peito caminhando pela via que lembrava um papel de jornal, a terna cena adornada pela borda amarela que há quase duas décadas havia me chamado a atenção dentre tantas outras capas: “Por uma semente de paz”, o livro que me despertou para a leitura. Mas continuo buscando!


As bordas amarelas que brilham forte em minha mente como na primeira vez em que avistei o livro!


Agora que a porta para o mundo da leitura havia sido aberta para mim, eu não desejava voltar nem que fosse com passagem de primeira-classe. E, nos anos a seguir, passei por outros gêneros literários, percorri aventuras e mistérios diferentes propostos por outros nomes da escrita, viajei bem longe por este extenso e surpreendente universo de criatividade e versatilidade. Mas nunca mais vou me esquecer do livro que me deu o par de asas para voar tão longe por este mundo!


Sobre o autor:

Ganymédes José Santos de Oliveira, foi um dos mais influentes escritores da literatura infantil brasileira nas décadas de 70 e 80. Recebeu vários prêmios, como o Prêmio APCA 1976, da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti 1985, da Câmara Brasileira do Livro, entre outros. Escreveu mais de cento e cinquenta livros entre literatura infantil, infantojuvenil e religiosos. Foi inspiração para muita gente do ramo, como Stella Carr, Álvaro Cardoso Gomes, Lourenço Diaféria e Pedro Bandeira. Também exerceu as profissões de cronista, ficcionista, poeta, tradutor, teatrólogo, musicista, restaurador de imagens sacras, advogado, professor e ilustrador de livros. Um dos principais livros foi:"Um Girassol Na Janela".


O escritor Ganymédes José

"Tenho de tirar de minha cabeça tudo o que ela puder dar ao mundo, porque sou agradecido a este mundo e não posso perder um único minuto em minha vida. Sou feliz e gostaria de dividir minha alegria com todos os que se dispuserem a me ler." (Ganymédes José)


Nascimento: 15 de maio de 1936, Casa Branca

Falecimento: 9 de julho de 1990, Casa Branca

Nome completo: Ganymédes José Santos de Oliveira

Morte: 9 de julho de 1990 (54 anos)


Livros de grande sucesso do autor: A ladeira da saudade, Por uma semente de paz, Uma luz no fim do túnel, Um girassol na janela, Série A Inspetora, Príncipe Fantasma, Amarelinho, Um amor do outro mundo, A macaca Sofia, Quando florescem os Ypês.

You May Also Like

10 comentarios

  1. Que viagem no tempo não é?
    O livro que me vem a cabeça quando penso na primeira leitura que fiz é No Reino Perdido do Beleleu.
    E assim como você quero reler mas não encontro o livro tão facilmente

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Chele,
      Obrigada pela sua leitura e comentário!
      Uma viagem e tanto! Eu até encontrei o livro reeditado e com capa nova, mas não é o mesma coisa de ter a capa das bordas amarelas, por isso, minha procura continua. Espero que você tenha o presente de encontrar um exemplar do seu livro em algum sebo por aí, algum dia!
      Abraço de livro!

      Excluir
  2. Olá...
    Amei demais o seu relato!
    Acho que no meu caso foi O Gênio do Crime, que meu professor de portugues passou pra turma ler quando eu estava na quinta série... Aí foi um caminho sem volta ;)
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Diane!
      Obrigada pela leitura! Que bom que você gostou da postagem, fico contente em saber!
      Despertamos para a leitura quase na mesma época. Eu estava na sexta série.
      Venha sempre!
      Abraço de livro!

      Excluir
  3. Que post mais lindo!!!Tão bom não só falar de tudo isso, de todo caminho, mas no caso, de você reviver isso e transmitir a nós!
    Eu não tenho muitas memórias, sou péssima. Mas o livro que me fez amar as letras foi A Divina Comédia, que li na biblioteca da escola, durante uma das diversas advertências que levava rs(eu pulava o muro pra ir no cemitério do lado da escola) Nâo ri rs
    Gostei tanto, que roubei o livro e o levei pra casa. Isso me custou uma surra da minha mãe, anos depois rs
    Mas valeu a pena!!!
    Adorei te ler um pouco mais!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Angela!
      Obrigada pela leitura e por usar palavras tão bonitas para expressar o quanto gostou do texto! Fico muito contente em saber que os leitores do blog conseguiram sentir tudo o que procurei transmitir ao escrever a postagem.
      Quem nunca teve vontade de ter aquele livro amado da biblioteca da escola só para si, não é?
      Abraço de livro!

      Excluir
  4. Que lindo esse seu testemunho de como se tornou leitora.
    Eu náo conhecia esse autor e fiquei um tempo olhando essa capa de bordas amarelas que tanto te conquistou .
    Espero de coração que você consiga encontra-lo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Eliane!
      Obrigada pela leitura e pelo seu comentário carinhoso!
      Sou suspeita em falar, mas acho que as editoras e os leitores perdem muito em não haver um revival da obra do Ganymédes José.
      Estas bordas amarelas são como luminosos atraindo os leitores para uma história de muitos ensinamentos!
      Agradeço também pela torcida.
      Venha sempre!
      Abraço de livro!

      Excluir
  5. Jacqueline!
    Que experiência transformadora, hein?
    Quando o véu da escuridão cai e passamos a enxergar a fonte de conhecimento através dos livros, é revigorante.
    Não conhecia o autor, mas fico feliz que através dele, tenha conseguido começar a ler.
    Aqui tem um sebo bem vasto e eles entregam em todo país, e caso não tenha o livro que deseja, ele procura em outros lugares: https://www.lojaosebocultural.com/
    Arrisca por lá, espero que consiga.
    cheirinhos
    Rudy

    ResponderExcluir
  6. Eita que história linda, a minha é parecida, comecei a ler na escola, mas desde de pequenina sempre me incentivaram a ler, mas esse sentimento só cresceu na escola! Nunca tinha visto esse livro que bom que ele trouxe maravilhas para a sua vida! Fico muito feliz, nós leitores sabemos a importância de livros na infância os que lia eram todos da escola. E já tinha visto o livro do Girassol na Janela por lá, mas não li olhando a imagem me deu uma sensação de nostalgia(rsrsrs). Um dos primeiros autores que li foi o Pedro Bandeira (amoo até hoje). Texto incrível! Parabéns!
    Abraços!

    ResponderExcluir